Como lidar com atletas ansiosos na competição: mandar acalmar não ensina ninguém a competir
Durante a semana, o atleta pede a bola.
Recebe pressionado, tenta o passe por dentro, arrisca o drible e, quando erra, continua participando do treino.
Chega o jogo e parece outro jogador.
Antes da partida, pergunta mais de uma vez se vai começar jogando. No aquecimento, faz tudo mais rápido do que o normal. Quando recebe a primeira bola, tenta se livrar dela imediatamente. Erra um passe simples e, nas jogadas seguintes, começa a se esconder atrás da marcação.
Às vezes acontece exatamente o contrário.
O atleta que normalmente conversa, brinca e participa chega ao vestiário calado. Senta num canto, responde apenas o necessário e parece distante do ambiente.
O treinador olha para um e pensa: “Está nervoso demais”.
Olha para o outro e conclui: “Hoje ele está desligado”.
Pode ser.
Mas os dois também podem estar vivendo a pressão da competição de maneiras completamente diferentes.
Esse é um dos primeiros cuidados quando falamos sobre atletas ansiosos na competição: ansiedade não tem uma aparência única.
E interpretar qualquer mudança como falta de coragem, falta de vontade ou despreparo pode fazer o treinador atacar justamente o comportamento errado.
Nem todo frio na barriga é um problema
Competir envolve importância, incerteza e avaliação.
Existe adversário. Existe placar. Existe expectativa. Existe a possibilidade de acertar, falhar e ser observado enquanto tudo isso acontece.
Então não deveríamos estranhar quando o corpo e a atenção do atleta mudam antes de uma partida.
O coração pode acelerar. A musculatura pode ficar mais tensa. Alguns atletas falam mais. Outros ficam quietos. Há quem sinta desconforto no estômago, dificuldade para permanecer parado ou necessidade de repassar mentalmente o que pode acontecer no jogo.
Ansiedade competitiva pode envolver componentes cognitivos, fisiológicos e comportamentais, e pesquisas recentes reforçam que ela não deve ser tratada como uma reação simples nem igual para todos os atletas.
Por isso, eu não gosto muito da ideia de avaliar o atleta apenas pela pergunta:
“Ele está nervoso?”
Eu prefiro observar outra coisa:
O que esse estado está fazendo com o jogo dele?
Se o atleta continua percebendo os espaços, comunicando, pedindo a bola e tomando decisões coerentes, talvez aquela ativação faça parte da maneira dele entrar na competição.
O problema começa quando a tensão altera de forma importante aquilo que ele normalmente consegue fazer.
Ele passa a decidir antes de perceber.
Evita ações que domina.
Procura constantemente confirmação do treinador.
Erra e demora a voltar para o jogo.
Ou entra numa preocupação tão grande com as consequências que deixa de prestar atenção naquilo que está acontecendo diante dele.
É aí que o treinador precisa olhar além do rótulo “nervoso”.
O mesmo medo pode produzir comportamentos diferentes
Tem atleta ansioso que fica acelerado.
Anda pelo vestiário, mexe no material, pergunta o horário, fala muito, chama os companheiros e parece precisar fazer alguma coisa o tempo todo.
Dentro da quadra, essa aceleração pode aparecer na tomada de decisão.
Recebe e já tenta resolver. Finaliza quando poderia continuar a jogada. Pressiona sem cobertura. Força um passe vertical. Corre muito, mas lê pouco.
Outro atleta faz o caminho oposto.
Fica quieto.
Diminui a participação.
Recebe e devolve imediatamente. Para de arriscar o passe que normalmente executa. Evita finalizar. Depois do primeiro erro, começa a circular por zonas em que dificilmente receberá a bola.
O comportamento muda, mas a preocupação pode nascer de lugares parecidos.
Medo de errar.
Medo de perder a posição.
Medo de decepcionar o treinador.
Medo da cobrança da família.
Medo de ser responsabilizado por uma derrota.
Ou uma autocobrança tão alta que cada ação começa a parecer uma prova sobre a própria capacidade.
Imagine um jogador que treinou bem durante toda a semana, mas chega no dia da partida perguntando várias vezes:
“Professor, eu vou começar?”
Talvez ele queira apenas informação.
Mas, quando a pergunta volta cinco, seis vezes, o problema já pode não estar na escalação. Ele pode estar procurando uma garantia que diminua momentaneamente a incerteza.
Responder toda vez “fica tranquilo, você vai jogar bem” talvez alivie por alguns minutos.
Mas o jogo continua sendo incerto.
Por isso, eu prefiro devolver clareza quando ela existe e foco no que pode ser feito.
“Hoje você começa no banco. Quando entrar, quero que pressione por dentro e dê profundidade depois do passe. Se houver mudança, eu te aviso.”
Informação objetiva.
Função clara.
Menos espaço para o atleta gastar energia tentando descobrir aquilo que o treinador já pode organizar.
O treinador também participa do ambiente de pressão
Às vezes, sem perceber, somos nós que aumentamos o peso da partida.
O atleta já está preocupado e escuta antes de entrar:
“Hoje eu preciso de você. Não pode errar.”
A intenção pode ser transmitir confiança.
Mas ele também pode ouvir:
“Se eu errar, vou decepcionar o treinador.”
A partir daí, cada domínio passa a valer mais do que deveria.
Cada passe parece avaliação.
Cada escolha precisa primeiro vencer o medo da consequência.
Existem outras frases que parecem motivacionais, mas podem acrescentar ameaça a um atleta que já está pressionado:
“Hoje não podemos perder.”
“Tem gente querendo sua posição.”
“Você precisa resolver esse jogo.”
Cobrança faz parte da competição.
Responsabilidade também.
Não acredito que preparar psicologicamente um jogador signifique protegê-lo de qualquer desconforto ou fingir que o resultado não importa.
A questão está em como cobramos.
Existe diferença entre dizer:
“Não perde essa bola.”
e orientar:
“Se receber pressionado por dentro, protege primeiro e procura o apoio.”
Na primeira fala, o atleta recebe uma consequência para evitar.
Na segunda, recebe uma ação para executar.
Depois de um erro, acontece a mesma coisa.
“Você está dormindo?”
não devolve informação nenhuma ao jogador.
“Perdeu por dentro. Reage fechando o centro e volta para a próxima.”
já coloca sua atenção novamente no jogo.
Essa diferença parece pequena no banco.
Para quem está jogando sob pressão, pode não ser.
Segurança não significa diminuir a exigência
Quando falamos sobre ambiente seguro no esporte, existe um risco de interpretação.
Parece que estamos propondo uma equipe sem cobrança, conflito ou consequência.
Não é isso.
A literatura sobre segurança psicológica no esporte trata justamente da possibilidade de participação, comunicação e exposição interpessoal sem medo excessivo de humilhação ou punição social. Não significa retirar responsabilidade competitiva nem transformar erro em algo irrelevante.
Na prática, eu penso assim:
o atleta precisa saber que será responsabilizado pelas decisões, mas não humilhado por elas.
Se ele perde uma bola no centro da quadra e oferece contra-ataque, precisamos corrigir.
O erro tem consequência tática.
O que não precisa existir é uma segunda consequência criada pelo treinador: o jogador passar a ter medo da nossa reação.
Imagine a cena.
Ele perde a bola, o adversário finaliza e imediatamente olha para o banco.
Se encontra o treinador gesticulando de maneira desesperada, ele pode entrar na posse seguinte preocupado não apenas com o adversário, mas com aquilo que acontecerá se errar novamente.
Um banco que transmite desespero pode acrescentar pressão a quem já está lutando para organizar a própria atenção.
Isso não significa virar treinador indiferente.
Significa entender que nossa reação também comunica.
Às vezes, depois de um erro importante, o atleta não precisa de uma palestra.
Precisa saber qual é a próxima ação.
A preparação mental também acontece durante a semana
Não faz muito sentido ignorar esse assunto durante meses e tentar resolver tudo cinco minutos antes de uma semifinal.
Preparação psicológica também é construída no treinamento.
Ela aparece quando o atleta precisa decidir sob pressão.
Quando existe oposição real.
Quando o tempo diminui.
Quando o placar da tarefa importa.
Quando ele erra e precisa continuar participando.
Podemos, por exemplo, terminar um jogo reduzido empatado e criar uma situação em que uma equipe precisa buscar o gol enquanto a outra administra espaço e tempo.
Podemos treinar goleiro-linha depois de uma tarefa intensa.
Podemos colocar uma bola parada importante no final da sessão, quando existe fadiga e os companheiros estão observando.
Podemos criar tarefas em que a equipe perde a posse e precisa reorganizar imediatamente, sem permitir que o erro anterior domine a ação seguinte.
O objetivo não é transformar treino em sofrimento artificial.
É aproximar o atleta, de forma organizada, das exigências que encontrará quando houver pressão de verdade.
Treinamos pressão pós-perda antes do jogo.
Treinamos saída contra marcação alta antes do jogo.
Treinamos bola parada antes do jogo.
Então por que esperar a final para ensinar o atleta a reorganizar a atenção depois de errar?
Pesquisas sobre intervenções psicológicas mostram que existem estratégias capazes de ajudar atletas a lidar melhor com a ansiedade competitiva, embora os resultados variem entre métodos, indivíduos e contextos. Uma meta-análise publicada em 2026 reuniu 46 estudos randomizados e reforçou justamente a importância de intervenções ajustadas às características da situação e do atleta, em vez da ideia de uma técnica universal.
Para o treinador, isso deixa uma lição importante.
Não precisamos transformar o treino em sessão clínica.
Mas podemos construir um ambiente em que o jogador aprenda a atuar quando existe desconforto, pressão, erro e incerteza.
Troque “joga bem” por comportamentos que o atleta reconhece
Antes de uma partida importante, o atleta pode entrar pensando:
“Preciso jogar bem.”
Mas o que exatamente significa jogar bem?
Fazer gol?
Não errar passe?
Ganhar?
Ser titular na próxima rodada?
Quando o objetivo é amplo demais, qualquer ação pode virar prova de fracasso.
Por isso, gosto de aproximar a atenção de comportamentos observáveis.
“Na primeira posse, oferece linha de passe.”
“Quando perdermos a bola, fecha primeiro o corredor central.”
“Depois de passar, continua a ação.”
“Recebeu pressionado? Protege e procura apoio.”
São referências pequenas, mas devolvem o jogador para aquilo que está acontecendo.
O resultado da partida depende de muita coisa.
O comportamento seguinte está mais próximo dele.
Isso não elimina a ansiedade.
Também não precisa eliminar.
O objetivo é impedir que a preocupação com o que pode acontecer roube toda a atenção daquilo que precisa ser feito agora.
O que eu faria com um atleta muito ansioso antes do jogo
Eu começaria observando mudança de comportamento.
Não compararia aquele atleta com o restante da equipe.
Compararia com ele mesmo.
Se normalmente conversa e naquele dia está completamente fechado, algo mudou.
Se costuma ser tranquilo e agora anda pelo vestiário perguntando a escalação repetidamente, também.
Eu não chegaria afirmando:
“Você está ansioso.”
Perguntaria.
“Como você está chegando para o jogo hoje?”
Ou, quando existe uma mudança muito evidente:
“Percebi você mais quieto. Tem alguma coisa pesando?”
E depois escutaria a resposta.
Pode ser o jogo.
Pode ser medo de não entrar.
Pode ser uma cobrança familiar.
Pode ser uma situação fora do futsal.
Nem toda alteração antes da partida nasceu dentro da quadra.
Se a preocupação estiver relacionada ao jogo, eu tentaria diminuir ruído, não aumentar informação.
Nesse momento, despejar cinco correções táticas em cima do atleta provavelmente não ajuda.
Eu escolheria uma ou duas referências.
“Você não precisa resolver o jogo quando entrar. Quero que ofereça apoio na saída e reaja rápido depois da perda. Vai entrando na partida por essas ações.”
Se ele estiver muito acelerado e já conhecer alguma rotina simples de respiração lenta, pode utilizá-la por alguns instantes. Revisões sobre técnicas respiratórias mostram efeitos promissores sobre estresse e ansiedade, mas os resultados dependem da técnica, do contexto e da forma de aplicação. Eu trataria isso como recurso possível, nunca como solução automática.
Depois, devolveria previsibilidade quando fosse possível.
“Você começa no banco. Deve entrar na primeira rotação. Quando eu chamar, aquece ali. Sua primeira função será fechar o passe por dentro e atacar profundidade quando recuperarmos.”
Observe que eu não disse:
“Relaxa.”
Também não prometi:
“Vai dar tudo certo.”
Eu organizei aquilo que poderia ser organizado.
Quando chegasse o momento de entrar, provavelmente evitaria um discurso novo.
“Primeira ação simples. Entra no jogo.”
E deixaria o atleta jogar.
E se ele errar a primeira bola?
Esse momento diz muito sobre o ambiente que construímos.
O atleta entra.
Primeiro domínio.
Primeiro passe.
Erro.
Ele olha para o banco.
O que encontra?
Se tomou uma boa decisão e falhou tecnicamente, talvez eu nem precise corrigir naquele momento.
Um gesto para continuar pode ser suficiente.
Se existe um ajuste importante:
“Abre antes de receber.”
“Usa o apoio.”
“Protege o centro.”
Poucas palavras.
Informação que serve para a jogada seguinte.
O que eu evitaria é transformar o erro em julgamento sobre o atleta.
Porque um jogador preocupado demais em não errar começa, muitas vezes, a escolher apenas aquilo que parece seguro.
E jogar seguro não significa necessariamente jogar bem.
Às vezes, o passe vertical correto envolve risco.
A finalização precisa ser tentada.
O pivô precisa proteger uma bola difícil.
O defensor precisa antecipar.
O futsal exige decisões.
Se cada erro produzir punição emocional, não deveria nos surpreender quando alguns atletas passarem a evitar decisões.
Nem todo atleta precisa da mesma motivação
Outro erro comum aparece quando o treinador percebe tensão e responde aumentando ainda mais a intensidade.
Grita mais.
Faz uma preleção maior.
Coloca música mais alta.
Transforma tudo em guerra.
“Hoje é ganhar ou morrer.”
“Quem tem medo não entra.”
“Quero todo mundo a mil.”
Talvez isso funcione para determinado jogador.
Para outro, pode ser exatamente o excesso que faltava.
O atleta já chega acelerado e nós aceleramos mais.
Já está pensando nas consequências e nós aumentamos o tamanho delas.
A literatura sobre estados de desafio e ameaça mostra que situações de pressão não são interpretadas da mesma forma por todas as pessoas. A relação entre demandas percebidas, recursos disponíveis e desempenho é mais complexa do que simplesmente concluir que “mais motivação” produzirá uma atuação melhor.
É por isso que conhecer o atleta continua sendo uma ferramenta de treinador.
Tem jogador que precisa de energia.
Tem jogador que precisa de clareza.
Tem jogador que fala antes da partida.
Outro prefere alguns minutos em silêncio.
A mesma preleção entra em vinte cabeças diferentes.
Existe um limite para a atuação do treinador
Treinadores convivem muito com os atletas.
Por isso, frequentemente somos os primeiros a perceber uma mudança.
Podemos observar.
Conversar.
Ajustar nossa comunicação.
Organizar melhor o ambiente.
Construir rotinas esportivas mais previsíveis.
Ensinar estratégias simples relacionadas ao desempenho dentro da nossa competência.
E encaminhar quando necessário.
O que não deveríamos fazer é transformar uma conversa de vestiário em atendimento psicológico improvisado.
O consenso do Comitê Olímpico Internacional sobre saúde mental de atletas, atualizado em 2026, reforça a importância de ambientes esportivos atentos à saúde mental, da identificação de sinais e da existência de caminhos adequados para suporte e avaliação profissional.
Reconhecer um problema não significa diagnosticar.
Se a ansiedade aparece de maneira persistente, provoca sofrimento importante, prejudica repetidamente treinos e competições ou começa a interferir também no sono, escola, trabalho, relações ou rotina do atleta, o treinador precisa reconhecer o limite da própria função.
Nesses casos, psicólogo do esporte ou outro profissional de saúde mental qualificado pode ser necessário.
Encaminhar não significa abandonar o atleta.
Também não significa exagerar o problema.
Significa fazer aquilo que esperamos de qualquer profissional responsável: saber onde termina a própria competência.
Preparar para competir não é ensinar o atleta a não sentir
Eu não espero que um jogador entre numa final sentindo a mesma coisa que sente num treino comum de terça-feira.
A partida importa.
Ele sabe disso.
Os companheiros sabem.
O adversário sabe.
Nós também.
Não precisamos fingir que a pressão não existe.
Precisamos preparar o atleta para continuar jogando dentro dela.
Continuar enxergando o passe quando o coração acelera.
Continuar comunicando depois de errar.
Continuar pedindo a bola quando a partida aperta.
Continuar decidindo sem transformar cada ação num julgamento sobre o próprio valor.
Talvez seja essa uma das partes mais difíceis da formação competitiva.
Não retirar toda tensão do jogo.
Mas ajudar o jogador a perceber que a tensão pode estar ali sem tomar conta de tudo.
Porque competir não é esperar o medo desaparecer para então agir.
É aprender a continuar percebendo, decidindo e executando quando o jogo começa a pesar.
E na sua equipe: quando um atleta demonstra ansiedade antes de competir, você tenta primeiro fazê-lo parar de sentir ou procura entender o que aquela pressão está fazendo com o jogo dele?
Coach Edhuardo | Treinador de Futsal | @coachedhuardo
Meta descrição
Como lidar com atletas ansiosos na competição: sinais, comunicação, preparação mental e ações práticas para treinadores de futsal antes e durante o jogo.
Fontes consultadas
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